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Friday, November 27, 2009

Newspaper Optimus/Blitz (Portugal, Dezembro 2009)



JORNAL OPTIMUS/BLITZ #20: Nelly Furtado - Ao Assalto!

Quando este jornal lhe chegar às mãos, Nelly Furtado já terá marcado presença num Optimus Secret Show muito especial. Lia Pereira passa em revista a história de sucesso da cantora luso-canadiana que, tendo os olhos do mundo postos em si, nunca se esqueceu das raízes, portuguesas com certeza.

Depois do sucesso do primeiro Optimus Secret Show, a cargo dos indies suecos Mando Diao, o segundo nome desta série de concertos muito especiais não podia ser mais imponente. Quando este jornal chegar às bancas, Nelly Furtado, uma das maiores estrelas da pop mundial, terá abrilhantado mais um Optimus Secret Show num concerto de formato sui generis (ver caixa).

Esta não é a primeira vez que a filha de emigrantes açorianos troca as voltas a quem acompanha de perto uma carreira que arrancou, de forma oficial, com o álbum Whoa, Nelly!, há nove anos. Depois de uma adolescência passada a ajudar a mãe a limpar quartos de hotel ("Cresci na sala das máquinas de lavar do motel", confessou em tempos), Miss Furtado fugiu, com permissão, à sombra protectora do pai (que da filha costumava dizer: "Na Nelly ninguém toca!") e do irmão mais velho, que a apresentou ao hip hop, para procurar o seu próprio caminho. Com o dinheiro que ganhou num Verão de árduo trabalho, Nelly viajou, na transição para a idade adulta, para a Europa. A expedição iria marcá-la, conforme confessou em entrevista a Anabela Mota Ribeiro, para a revista Selecção da Reader's Digest. "Aos 17, trabalhei o Verão inteiro das 9 à 5 numa companhia de alarmes. O emprego era muito chato, mais ruim do que limpar! Usei o dinheiro para pagar as gravações do meu grupo de então [Nellstar] e o bilhete para a Europa". Mais do que o Portugal dos seus pais, o Velho Continente fazia-se, para a adolescente, de outros destinos: "Fui até Madrid, Barcelona, San Sebastian, Paris, Londres. Viajei cinco semanas. Depois regressei a Victoria, ingressei na universidade e tirei um curso de escrita criativa", conta na mesma entrevista.

A entrada no mundo da música deu-se por insistência dos amigos, que a persuadiram a gravar as primeiras demos, e desaguaram no interesse da importante editora Dream Works, para a qual gravou Whoa Nelly!. Apresentado pela ingenuidade pop de "I'm Like A Bird" - uma das canções favoritas do escritor inglês Nick Horby, conforme reunidas no livro 31 Songs - o primeiro disco da luso-canadiana transformou-a numa improvável estrela a nível mundial e foi mesmo galardoado com uma série de importantes prémios da indústria, dos Grammys aos Juno Awards, distinção maior no país que a viu nascer. As expectativas eram altas para o segundo álbum, mas ao invés de insistir na mistura de pop ligeira e hip hop incipiente, Nelly Furtado apostou num mergulho pelas suas raízes. Folklore, lançado três anos depois de Whoa Nelly!, mantinha a frescura vocal da estreia mas introduzia no universo da jovem artista, que acabara de ser mãe, um lado mais doce, presente em baladas como "Try", e todo um novo interesse pelas "raízes".
Não era um disco de música popular portuguesa, evidentemente, mas contava com participações de luxo como a de Caetano Veloso e acabou por render, em Portugal, um êxito descomunal, com "Força", a música que acabou por transformar-se em hino do Europeu de Futebol de 2004.

Em entrevista à BLITZ, em 2006, Nelly Furtado, já em plena febre Loose, comentava a reacção menos entusiasmada do resto do mundo a Folklore. "Eu tenho muito orgulho [no meu segundo disco]. E muitas vezes, quando falo com os meus fãs, eles dizem que é esse o seu disco favorito, porque as canções os tocam de uma forma íntima, muito profunda. É o caso de "Try" e outras baladas", exemplificava. "Folklore é como uma página do meu diário, e sinto-me muito privilegiada por ter podido partilhar uma coisa tão pessoal com tantas pessoas. Eu acredito que Folklore é um marco artístico".

DE DEUSA DA TERRA A PRINCESA DA POP

Por muito orgulho que Nelly tenha em Folklore, foi com Loose, em 2006, que o seu nome deixou de ser conotado com as categorias de "jovem revelação" ou "fenómeno regional". O truque foi juntar-se a Timbaland, porventura o produtor mais influente desta década, na criação de uma nova "persona" de estúdio e de palco, directamente inspirada na cultura do hip hop e do R&B dos anos 00. Os êxitos fizeram o resto, e basta lembrarmo-nos de "Promiscuous Girl" ou "Maneater" para perceber como explodiu, há três anos, a "nossa" pequena Nelly Furtado. E nem as faíscas faltaram a este "big bang" artístico, contava a cantora em 2006. "No dia em que gravámos o "Maneater", o som no estúdio estava tão alto que das colunas não só saiu fumo, como uma chama! A sério. A coluna pegou fogo por a canção ser tão comprida. Parecia um aviso. Ficámos com medo da música, deixámo-la de parte durante duas semanas porque não sabíamos o que fazer com ela, era perigosa!".

Mas a metamorfose de deusa da terra para princesa da pop teve as suas dificuldades: Timbaland garante que, na primeira vez que viu a discípula dançar, teve de mandá-la parar, pois os seus passos de dança eram demasiado espontâneos (desastrados?) para que Nelly pudesse entrar fulgurantemente no campeonato das divas R&B. Apesar de ter passado a juventude imersa em música "de dança" - "Ouvia TLC, Ice-T, Mary J Blige" - a intérprete tinha, ainda, que assimilar a vertente mais física daquilo a que chamava "estilo de vida". "Sou influenciada pela forte sexualidade feminina do hip hop dos anos 90, da Queen Latifah, Salt-n-Pepa, TLC", revelou então. "Eram sexy, inteligentes e criativas - mulheres fortes, a controlar. E é por isso que gosto do conteúdo sexual de Loose: é muito orgânico".

A transformação de Nelly Furtado em Loose baralhou, naturalmente, muitos dos fãs habituados à sua faceta mais mansa e acústica. À BLITZ, a mulher de "Powerless (Say What You Want)" garantia não se preocupar com tais reacções. "Fiquem a saber que estou a gostar muitíssimo de ser uma princesa da pop! Talvez por ser mãe, aprendi a pedir aquilo que quero, e deixei de ter medo de ser um ícone da pop, de cantar uma canção simples", explicou-nos. "Antes, acho que me perdia a tentar explicar quem era. Acho que agora estamos a ver, finalmente, a mulher que eu sou, a minha alma, a minha música".

Também a família de Nelly Furtado acompanhou com relativa estranheza a mudança de visual e sonoridade da sua mais ilustre representante. "A minha tia de São Miguel já me disse que o vídeo do "Maneater" é muito moderno!", contava, entre gargalhadas, à BLITZ em 2006. Uma evolução de mentalidade, certamente, desde os primeiros passos de Nelly no mundo da pop: aquando do disco de estreia, confessava: "A minha família é muito humilde. A minha avó não aprecia que eu ande em tournée, que viaje tanto, que conheça tantos rapazes", dizia à Selecção Reader's Digest. "Quando viu o meu vídeo, estavam todos na cozinha a assistir... Sabe aquela parte em que aparecem milhares de pessoas? Ela viu essa parte e comentou: "Com a barriga de fora frente àqueles rapazes todos!"".

UMA LATINA COM A CABEÇA NOS AÇORES

Os pais de Nelly Furtado - Maria Manuela e António José - nasceram nos Açores. António emigrou para o Canadá aos 25 anos, com a família, e conheceu a futura mulher numas férias em São Miguel. Recuando uma geração, encontramos os avós de Nelly, lavradores com uma paixão assumida pela música. "O meu avô Virgínio Araújo Neto era uma lenda em São Miguel", orgulhou-se Nelly Furtado de revelar, na entrevista à Selecções Reader's Digest. "O seu irmão tocava nas bandas. Compunham marchas. Havia uma grande paixão pela música na casa da minha mãe". Não decepcionar o seu clã ("Tenho medo de ficar estrangeira, não quero ficar distante", dizia então) era em 2000 a prioridade da jovem intérprete. Desde então, teve uma filha - Nevis, agora com seis anos - e casou com Demacio Castellón, um cubano que terá ajudado a esposa na transição para uma nova fase: a de cantora "latina".

Mi Plan, editado este ano e apresentado pelo single "Manos Al Aire", é o novo capítulo do percurso, por vezes desconcertante, de Nelly Furtado. Cantado em castelhano, idioma que a luso-descendente garante conferir-lhe mais liberdade e paixão, irá com certeza estabelecer o seu nome como um peso pesado na América Latina e junto das comunidades hispânicas nos Estados Unidos. "As minhas origens são portuguesas e, apesar de na América associarmos o ser latino à comunidade hispânica, isso também nos inclui a nós, portugueses", afirmou já, numa entrevista a uma publicação hispânica. As primeiras aproximações haviam já surgido com os temas "No Hay Igual" e "Te Busque", com Juanes, incluídos em Loose, e prosseguem agora a todo o vapor em Mi Plan, um disco que Nelly afiança beber da atmosfera fervilhante de Miami, para onde foi viver e acabou por contactar com estilos desbragados como o reggaeton. Mas se há coisa que fascina em Nelly Furtado é a sua inesperada versatilidade: a mesma mulher que cantou ser como um passarinho e levou a selecção portuguesa (quase...) até à vitória final, seria capaz, pouco depois, de se confessar uma devoradora de homens - e pelo caminho foi gravando duetos amorosos com o baladeiro James Morrison ou elogiando calorosamente o "génio" de Chris Martin, dos Coldplay. "Ele é, sem dúvida, um dos melhores escritores de canções da minha geração. Inventa coisas de um momento para o outro. Tem muita alma!", comentou numa entrevista com o site I Like Music. O rapper Flo Rida, Justin Timberlake e até o DJ Tiësto são outros dos numerosos parceiros artísticos de Nelly Furtado nos últimos anos, cada um apontando numa direcção musical distinta, como seria de esperar. Será que não há limites para o que esta rapariga quer - e vai - fazer?

Nelly, a roqueira
Eis uma faceta que Nelly Furtado ainda não explorou: a do rock. Mas, a avaliar pelos gostos e preferências manifestados em várias ocasiões, poderá residir aí uma das novas encarnações da artista. "Adoro o indie, adoro o novo som do rock", afirmou numa entrevista de promoção a Loose. "Gosto dos Bloc Party, Death From Above, Arcade Fire, aquela cena rítmica toda. Sou um bocado louca por essas coisas todas porque acho que o rock finalmente apanhou o hip hop, no sentido em que voltou a ser rítmico. Acho que o "Maneater" tem qualquer coisa disso".

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