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Saturday, September 4, 2010

Nelly Furtado | Notícias Magazine (Portugal, 2010)

Lembranças da minha avó de Portugal
por Ana Meireles.

(3 ago. 2010)

Esta semana foi o Dia Mundial dos Avós. A relação entre avós e netos é feita de amores e desamores. Ainda mais quando estão longe uns dos outros. Muitas vezes em países diferentes. Ficam aqui algumas das histórias de afecto à distância. Têm a palavra os netos...

«Os meus pais puseram-me num curso de Português para que eu pudesse escrever cartas à minha avó.» Esta confidência foi feita recentemente por Nelly Furtado, a cantora pop filha de açorianos e natural do Canadá. Assim, a ligação entre ela e Maria Paixão Furtado foi ficando mais forte ao longo dos anos. Como se pode notar pelas vezes que Nelly fala dela. «A minha avó não aprecia que ande em tournée, que viaje tanto, que conheça tantos rapazes. Quando viu o meu videoclip, estavam todos à frente da televisão da cozinha a assistir... Sabe aquela parte em que aparecem milhares de pessoas? Ela viu essa parte e comentou: ?Com a barriga de fora diante destes rapazes todos!? [gargalhada] Para dizer que a minha avó está orgulhosa, mas não percebe a minha vida», contou cantora numa entrevista. E Nelly retribuiu esse orgulho: no vídeo Turn off the Light usa algumas jóias da avó açoriana.

Nos vídeos de apresentação transmitidos durante a última temporada de American Idol vê-se a concorrente Katie Stevens a cantar e a tocar piano para a avó. E assim que a luso-descendente soube que tinha conseguido entrar no programa foi a Rita Francisco que ligou: «Avó, é a Catarina. Ganhei!!!», disse a jovem de 17 anos, em português.

Uma das frases mais repetidas por Katie, filha de mãe portuguesa e pai norte-americano, durante a sua permanência no concurso de talentos mais visto dos Estados Unidos, era precisamente sobre a avó portuguesa. «Há um ano foi diagnosticado Alzheimer à minha avó e gostava muito de ter sucesso enquanto ela não se esquecesse de mim.»

Segundo a família, a relação entre Katie e Rita Francisco é muito próxima. «Elas são mesmo muito ligadas», contou Clara Stevens, a mãe da jovem. Essa proximidade vem, em parte, do muito tempo que passava em casa da avó, principalmente desde a morte do avô, também nascido em Portugal. No final da sua participação no American Idol, as primeiras palavras de Katie foram, mais uma vez, para a avó. «Falei com ela quase todos os dias. Agradeço que ela ainda saiba quem eu sou e por ter conseguido assistir aos espectáculos. Agora só quero chegar a casa e dar-lhe um abraço muito apertado.»

Recordações de infância
País de famílias divididas, Portugal tem muitas histórias como as de Nelly Furtado e Katie Stevens e das suas avós portuguesas. E são estas avós que acabam por ser o garante das memórias portuguesas nestas famílias, guardadoras das recordações familiares e de uma cultura e um país que entretanto se tornaram distantes. Muitos dos netos só conhecem esse país através das suas avós. Esses laços de ternura e essas ligações culturais foram o ponto de partida para o livro Passos de Nossos Avós, de Aida Baptista e Manuela Marujo, que apresenta histórias enternecedoras contadas por netos que viveram longe das suas avós. «Tanto avós como netos adoram falar uns dos outros. Muitos ficaram surpreendidos consigo mesmos, com o que tinham para dizer. Em particular da parte dos netos notei que muitos me agradeceram por eu os ter feito reflectir sobre essa relação que eles sabiam ter existido mas sobre a qual nunca ninguém lhes tinha perguntado nada. Quero acreditar que alguns deles foram ter com os seus avós e os surpreenderam com um mimo, uma palavra mais afectuosa, um gesto de gratidão», disse à nm Manuela Marujo, uma das autoras, cujo trabalho foi apresentado no II Congresso «A Voz dos Avós: Migração e Património Cultural», que se realizou esta semana em Lisboa.

Passos de Nossos Avós conta mais de três dezenas de histórias, umas mais recentes, outras mais antigas, mas todas com um ponto em comum: a relação de amor entre avós e netos e a importância que os primeiros tiveram na continuidade da ligação a Portugal. Álamo Oliveira, escritor açoriano da Terceira radicado nos Estados Unidos, fala da sua avó, falecida aos 60 anos, quando ele tinha 8. «Chamava-se Florinda a minha avó. Criou quatro filhos, ganhando o sustento com o que sabia fazer. (...) A avó Florinda ficou-me na memória como sobremesa nicada de respeito e afecto. A gente olhava-a e logo o seu sorriso desdentado nos aquecia o coração. Dos seus nove netos, nenhum lhe tinha uma pisca de indiferença. Mas essa deferência foi, paulatinamente, conquistada por ela. Cada tropelia nossa que obtivesse mau resultado, lá estava ela a encobrir o que estava por mais descoberto. (...) Uma simples gripe dava direito à companhia dela, a uma fatia de pão de trigo com marmelada, a uma tigela de chá preto temperada com açúcar e à leitura do Toiro Azul ? um conto impresso em papel rasca, a manifestar um enorme desgaste por tanto uso. (...) Lembro as primeiras letras que me fez desenhar na ardósia do meu irmão, do rebuliço mental de as juntar com a ajuda da cartilha de João de Deus; e lembro a paciência com que me ensinou a pegar num lápis e a desenhar no papel, que antes embrulhara açúcar de mercearia, as flores que detinha dos seus bordados: rosas, margaridas, miosótis. Foi este ensino antecipado que me fez encarar a escola com muita serenidade.»

As histórias sucedem-se. Como as recordações de Brianna Medeiros, natural de Rhode Island, nos Estados Unidos, e actualmente a estudar Relações Internacionais na Brown University, que aprendeu português por causa da avó. «Ainda me lembro, quando eu era pequenina, de ir a casa da minha avó todos os fins-de-semana. Adorava estar com a mãe do meu pai, uma mulher sempre cheia de carinho e amor por nós – os seus netinhos muito queridos. Guardo lembranças dela, muito significantes e sentimentais para mim: momentos simples, quando eu e a minha avó caminhávamos a pé até à loja Feliciano’s para comprar um Sumol (de preferência de maracujá) e amêndoas; quando dançávamos – eu e a minha prima – sob a videira no quintal, com a nossa vavó (modo açoriano de tratar as avós) a ver com aquele sorriso cheio de alegria e orgulho (...).
Mas nunca conversámos as duas. Não podíamos: ela não falava inglês e eu não falava português. Sempre quis falar com ela e lembro-me das várias vezes em que eu me esforcei por aprender a língua: pedi e recebi programas de computador, livros, tudo coisas que julgava que dariam para saber falar português. (...) Apesar de não termos tido a possibilidade de falar uma com a outra, o nosso amor era, e continua a ser, uma sensação muito forte, porque tínhamos a capacidade de amar, de estar contentes na presença uma da outra. Inumeráveis são os momentos cheios de risos, de abraços e de serenidade enquanto víamos televisão ou comíamos juntas o seu caldo verde delicioso.»

ENTREVISTA A MANUELA MARUJO
«Avós e netos adoram falar uns dos outros»
Nasceu em Portugal e dá aulas na Universidade de Toronto, no Canadá, desde 1985. A sua especialidade, o seu amor, é o estudo do português como segunda língua e a experiência da emigração centrada na relação entre avós e netos. Esta semana esteve em Lisboa como coordenadora do II Congresso «A Voz dos Avós: Migração e Património Cultural».

Como explica a importância dos avós na vida dos seus netos, principalmente naqueles que vivem mais afastados da herança cultural das suas famílias?
São eles quem estão presentes quando os pais trabalham, são eles que contam as histórias de família, passam as lendas, fazem a comida, ensinam jogos, ensinam a fazer tricot ou a bordar. São eles que vão levar e buscar à escola. Em resumo, são eles que têm o tempo no mundo stressante em que as famílias hoje vivem.

Acha que o valor dos avós é devidamente reconhecido?
Parece-me que tem havido pouca consciencialização do papel que esses avós desempenham, até por parte dos netos que recebem a influência. Digo isso porque, quando comecei a pedir aos meus alunos para escreverem sobre uma pessoa que os tivesse marcado muito na vida, eles escreviam sobre o avô ou a avó e só mais tarde me confessavam ter agora entendido essa importância. Alguns cujos avós entretanto tinham falecido confessaram ter pena de nunca terem agradecido aos seus avós os ensinamentos recebidos.

Como são as avós nos dias de hoje?
A imagem que hoje é preciso ter das avós é que são mulheres jovens, muitas formadas, profissionais, com carreiras e que são activas. Muitas escolhem ajudar os filhos na educação dos netos sacrificando viagens, sacrificando vidas mais interessantes à primeira vista. Elas querem ter uma parte activa na educação e nos corações deles. Por outro lado, também há filhos egoístas que esperam que as mães se disponibilizem no início da sua reforma para lhes ficarem com os filhos a tempo inteiro e que ficam escandalizados quando as mães dizem que não.

Da sua experiência com os trabalhos que já fez sobre esta temática, quais são as recordações mais comuns que os netos têm dos seus avós?
As brincadeiras, as histórias, as cantigas, o tempo disponível.

E o que afasta mais os netos dos seus avós?
Quando começa a escola, com as actividades extracurriculares (refiro-me aqui ao contexto da imigração), há menos oportunidades de estar com os avós e os pais já não necessitam tanto da ajuda... a pouco e pouco a língua, isto é, a falta de uma língua comum, afasta os netos dos seus avós.

O problema que muitas vezes existe da barreira da língua é motivador de um afastamento entre avós e netos? Ou os laços familiares, o afecto, consegue ultrapassar isso?
Afasta, sem sombra de dúvida. É triste ver avós impossibilitados de falar com os seus netos. Não se entendem pela falta de uma língua comum. Especialmente a partir da adolescência. O afecto está lá muitas vezes, mas não penso que seja suficiente.

Acredita que a herança passada pelos avós aos netos passa depois para a geração seguinte ou é uma coisa que eles guardam mais para eles, perdendo-se assim um testemunho da nossa herança?
Muitos netos descendentes de famílias portuguesas de terceira e quarta geração que tenho encontrado vêm a Portugal à procura de algo que lhes falta. Acredito que a herança fica mas leve mas não desaparece facilmente com uma ou duas gerações.

Sei que contactou com netos de outras culturas que não a portuguesa. Nota algumas diferenças entre a relação avós-netos portugueses e de outras nacionalidades?
Não, são as mesmas lembranças, é o mesmo sentido de gratidão, de grande consideração pelas dificuldades por que passaram os avós nas suas vidas. Há geralmente um grande respeito, um afecto enorme, não interessa a origem étnica.

O que se pode fazer para divulgar ainda mais a importância dos avós na sociedade, quer seja no dia-a-dia no nosso país quer nos casos em que parte da família emigra, deixando os avós para atrás, ou quando a família toda parte para um outro país?
Reunir estudiosos em congressos é apenas uma das iniciativas... Publicar livros com os trabalhos apresentados nos encontros ou com histórias relatando as boas ou más lembranças, como fizemos no dia 26 é outra. Mas há tantas outras: pequenos documentários, relatos de vida em programas de televisão e jornais ou revistas será outra maneira de alertar para o valor destas pessoas da nossa família.

Na sua opinião quais são as maiores diferenças nos avós e na relação com os netos nestas três situações: todos juntos no país de origem; os netos num segundo país e os avós no país de origem; e toda a família num segundo país?
Todos juntos no país de origem eu diria que sorte, espero que a família valorize a riqueza das experiências que daí possam advir; tanto que cada um pode dar e receber! Os netos num segundo país: espero que os pais invistam nos laços apesar da ausência, com visitas ao país de acolhimento. É possível, infelizmente penso que muitos nunca irão beneficiar desse relacionamento intergeracional, tudo se perde com a distância e a ausência. Toda a família junta no país de imigração: os avós são mais valorizados, em particular quando as crianças são pequenas. Criam-se laços maravilhosos que nunca ou dificilmente serão esquecidos.

Que recordações tem dos seus avós? Tinha uma convivência próxima com eles? O que mais a marcou dessa convivência?
Tenho melhores recordações, isto é, recordações mais próximas das minhas avós. Passei a maior parte das férias de Verão com elas. Fui muito mimada, contaram-me histórias, cantaram-me cantigas, ensinaram-me lengalengas. Eram as duas praticamente analfabetas. Nunca reparei. Tinham uma sabedoria de vida que me encantava.

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