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Monday, February 25, 2008

Blitz Magazine (Portugal, 2006)

Blitz Magazine (Portugal, Agosto 2006)

Nelly Furtado – De boazinha a boazona
Como Uma Força da Natureza

Ela andou anos a fazer-se passar por rapariguinha prendada e bem-intencionada, senão mesmo ingénua. Entretanto teve uma filha, viu o seu segundo álbum fracassar comercialmente, foi morar para Los Angeles e, finalmente, separou-se do pai da criança. O suficiente para que, ao terceiro álbum, Nelly Furtado diga que atingiu a maturidade. Agora canta a promiscuidade, em dueto com Timbaland, e interpreta o papel de uma “devoradora de homens”. Mistérios e maravilhas da música pop. Mas afinal, de que falamos quando falamos com Nelly Furtado?

O seu novo álbum chama-se Loose [solta]. Será por estar a libertar-se, finalmente, das suas raízes portuguesas? Não. Ia chamar-lhe Cruise Control, porque agora estou ao comando. Agora estou bem, estou no carro, estou a guiar, estou definitivamente a guiar o carro. Mas liguei o piloto automático e libertei-me. Por isso posso topar tudo. Encontro-me num sítio bom e estou muito feliz porque me separei, finalmente, do meu cérebro (risos). Divertiu-se a gravar Loose? Sim, diverti-me. Mesmo. Adoro este álbum e trabalhei muito nele. O trabalho com o Timbaland aconteceu muito depressa e só utilizei duas das outras canções dos artistas com quem trabalhei, que também são grandes artistas e produtores, como o Lester Mendez e o Juanes. Temos um dueto fabuloso neste álbum, chamado «Te Busque». Depois trabalhei com outro compositor, Rick Nowels, e essa é a minha faixa pop mais «standard» do álbum, «In God’s Hands». Posso perguntar-lhe o que aconteceu ao material que gravou com Pharrell Williams? Não sei, não entrou no álbum. Há mais um monte de canções, coisas mesmo boas. Gostava de trabalhar de novo com o Pharrell. Não tivemos muito tempo, só quatro dias ou assim, portanto daí não saiu nada que eu gostasse, mas ele disse o meu nome numa das canções dele e isso foi porreiro. A música serve de escape da sua vida privada desgastante? Quando estou a compor canções, preciso de admitir que compor tem realmente uma qualidade terapêutica. Tive uma experiência fantástica com este álbum porque, durante um ano, pude sentar-me com os melhores músicos e os melhores produtores e escoar as minhas emoções todos os dias. É realmente um trabalho de sonho. Estava mesmo feliz por estar ali – qualquer coisa que me acontecesse durante o dia, podia servir de pretexto para cantar sobre ela à noite. Abordei a composição de uma forma completamente diferente do primeiro álbum: antes sentava-me com a guitarra durante horas, escrevia umas 20 canções por dia e daí surgiam algumas de que gostava. Por exemplo, «I’m Like A Bird» foi composta em solidão. Os meus últimos dois álbuns, especialmente este, foram esforços de grupo, de equipa. Era eu, mais alguém para os arranjos das vozes, e o Timbaland e o colega dele, o Danger, e dois engenheiros e quem quer que estivesse de passagem pelo estúdio. Como se fosse uma festa. Chris Martin, vocalista dos Coldplay, divertiu--se muito a tocar consigo em «All Good Things», não foi? Isso foi muito engraçado. O Timbaland é doido. Ou seja, chegou ao estúdio à meia--noite, ficou até às cinco da manhã e foi-se embora – ele é mesmo maluco, mas adoro-o. Vi o Chris nos MTV Video Awards na noite anterior – já não o via há três anos, embora trocássemos mails de vez em quando – e ele disse: «Meu Deus, estás a trabalhar com o Timbaland?». E eu respondi: «Sim, tens de aparecer. O Timbaland adora a tua música». O Timbaland só falava dos Coldplay e punha as canções a tocar e cantava a acompanhá- -las… E eu adoro juntar as pessoas. Acho que é isso que faz a música avançar – juntar dois mundos. E o Chris disse-me «gostava de aparecer!». E eu disse: «Tens de aparecer, aparece amanhã, vai ser mesmo porreiro». Acertámos tudo, chegámos lá por volta da meia-noite, e o Timbaland lá estava sentado: «Meu Deus, tenho os Coldplay no estúdio!». Era só o Chris, mas ele chama Coldplay ao Chris e disse «Coldplay aqui, ó meu Deus!». Estavam os dois nervosos e o Chris deixou logo claro que não queria sentar-se ao teclado. E eu: «Senta-te, pá. É como se estivesses em casa». E foi, literalmente, uma paródia – eles pareciam dois miúdos de cinco anos numa loja de brinquedos, todos excitados por estarem na companhia um do outro. Tive de os convencer a sentarem-se e a fazer alguma música. «Sentem-se, faz uma batida, olha, está aqui a guitarra» e começámos a improvisar. E eu ali sentada a cantar um bocado… Bom, nem por isso… o Chris estava ali e parei quando estava a olhar para ele. «Por que é que paraste?», perguntou ele. E eu: «Boa pergunta. Talvez por seres um génio e eu fico melhor a ver-te compor canções». Ele compôs uma parte e eu terminei-a. Foi mesmo espectacular. Ele tocou connosco durante três ou quatro horas e todos nós ficámos maravilhados, porque ele soava como o James Brown. O funk saía dele, e nós tipo «Valha-me Deus!». É por isso que o disco se chama Loose, não tem barreiras, somos nós a fazer música. Não é ciência atómica, estamos simplesmente a divertir-nos. Porque é que o disco não tem canções portuguesas mas tem duas espanholas? Sei que vou ter problemas quando for a Portugal mas gosto de seguir o meu coração e só faço o que quero fazer. Não gosto de fazer seja o que for por achar que as pessoas vão gostar de a ouvir. Mas estava em Miami e tenho falado muito espanhol ultimamente. Cantarei sempre em português mas também gosto de cantar em espanhol. Desde que fiz o dueto com o Juanes, «Fotografia». Tem um álbum português dentro de si? Acho que sim, português e espanhol, e até já escolhi um produtor. Há anos que falamos sobre isso. É o Gustavo Santaolalla, um produtor que respeito imenso. Ele fez a banda-sonora do Brokeback Mountain. É um génio, adoro todas as suas produções e ele diz-me sempre «lembra-te de mim para o álbum português» – portanto vai mesmo acontecer. Decidimos que vamos gravá-lo na Argentina.Como foi a experiência de gravar «Força» [a canção de Folklore, que se tornou o tema oficial do Euro 2004]? Bom, a «Força» foi quase português suficiente para dez anos (risos). Não, estou a brincar. Soube muito bem ter finalmente uma canção maior que «I’m Like A Bird» em Portugal. Agora cada vez que as pessoas me vêem lá dizem «Força!». Nos MTV Europe Awards [realizados em Lisboa], os fãs na rua diziam--me o mesmo quando saía do hotel. E é o que me dizem agora. É muito engraçado porque é um sonho tornado realidade – quando era pequena sempre quis ir a Portugal, fazer música e fazer as pessoas felizes. Portanto toda a experiência do futebol foi excelente. E o melhor é que se tornou uma canção do futebol e o futebol vive para sempre. Por isso sinto que agora tenho a minha própria história no futebol. Encontrei o Nuno Gomes nos MTV Europe Awards e ele disse--me: «No balneário do Benfica cantamos a “Força” antes de cada jogo». Senti-me muito importante. (...)
Entrevista de Marcel Anders
Fotos de Chris Baldwin: Click Here

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