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Friday, February 22, 2008

Revista Blitz (Portugal, 2006)





Quem abriu a gaiola? Esqueçam a moça dos passarinhos; agora ela anda endiabrada.
Se em «I’m Like a Bird» Nelly Furtado se apresentava ao mundo enquanto porta-voz de uma certa inocência, conivente com os padrões de beleza naturais e disposta a cantar a felicidade eterna, em Loose, terceiro álbum de uma carreira não tão ascendente quanto isso, ela desmonta essa imagem para se (tentar) afirmar enquanto mulher fatal. A piada do disco é mesmo essa: Nelly no papel de animal sexual era qualquer coisa inimaginável. Até hoje. Quem pode acreditar que a luso-canadiana, intérprete do hino do Euro 2004 e mãe de família extremosa, encarne o papel de «devoradora de homens» com o mínimo de propriedade? Em simultâneo com a radical mudança de imagem, Furtado aproxima-se ainda mais dos modelos hip-hop/r&b, investindo decisivamente por uma sonoridade sintética e artificial que também não era seu hábito. Os arranjos electrónicos de «Man Eater» (o primeiro single) sublinham o lado plástico e ao mesmo tempo selvagem que são a marca de água de Timbaland e logo aí se entende que esta nova Furtado não saiu da sua imaginação. Os coros lembram «Bette Davis Eyes», o êxito de Kim Carnes, e fazem-nos viajar no tempo duas décadas. Para trás, claro. Mas que idade teria Nelly em 1981? «No Hay Igual» remete para a crueza rítmica de «Hollaback Girl» (de Gwen Stefani) e transporta o ouvinte para uma cidade digital suja, sombria e excitante, como nas melhores canções de Missy Elliott. É uma das mais estimulantes faixas de Loose, ainda que inaugure uma secção em castelhano que seria largamente dispensável. Melhor mesmo, só o dueto com Timbaland («Promiscuous»), onde Nelly Furtado salta as batidas entrecortadas enquanto o produtor pronuncia coisas como «promiscuous girl, you didn’t need». Como levar isto a sério? «Glow» é puro glamour, versão kitsch, mas sem disfarçar; antes pelo contrário, fazendo gala no jogo do gato escondido com o rabo de fora. De resto, sobram baladas melosas e canções melodiosas – como quem dá uma no cravo e outra na ferradura. Nada que consiga bater o efeito contra natura, senão mesmo a falta de à vontade de Nelly Furtado quando veste esta nova pele de dominadora. Quem é que se lembrou disto?
Texto: Miguel Francisco Cadete

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